ENTREVISTA RICARDO VALE Primeira parte: As contradições do PT

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Ricardo Vale recebeu 14.223 votos nas eleições de 2014 e foi o 16º distrital mais votado, recebendo sufrágios em todas as zonas eleitorais do DF. Na 5ª zona eleitoral (Sobradinho e Sobradinho II), porém, obteve 4.941 votos (5, 25% dos votos válidos). Planaltina lhe concedeu 1044 votos, consolidando a presença do deputado na Saída Norte do DF.

Apesar da votação até certo ponto modesta, em comparação com os 164.555 votos recebidos por seu irmão Paulo Tadeu, em 2010, ele não confirma mas veio ocupar o lugar do federal mais votado na história do PT, que  trocou as turbulências da política pela discrição da cadeira do Tribunal de Contas do DF.

Ricardo ganhou visibilidade como cartola, ao tirar a equipe profissional do futebol serrano do ostracismo e colocá-la entre as quatro principais da capital federal. Eleito, ele vem surpreendendo pelas posições afirmativas, pela sinceridade de propósitos e pela luta inglória que empreende a favor dos músicos e das casas noturnas, que perderam espaço com a lei do silêncio.

 “Mas vencemos a eleição, para a primeira zonal e iniciamos a militância, na qual permaneço até hoje”, explica o distrital que concedeu extensa entrevista ao jornalista José Edmar Gomes, do Folha da Serra,  na qual o deputado  responde questões sobre as contradições do PT,  o futuro de Lula  e do PT, uma possível candidatura avulsa, Lei do Silêncio, fim do Polo de Cinema e sobre as invasões de terras na Cidade.

Leia a seguir, a primeira parte da entrevista, que trata das contradições do PT:

Folha da Serra – Deputado, fale sobre o início do PT e a sua militância política em Sobradinho.

Ricardo Vale – Paulo (Tadeu) era funcionário da CEB, ligado às questões sociais. Eu sempre fui ligado ao esporte, à liga de futebol amador da cidade (Lades), também à Escola de Samba Bola Preta e ao Bumba-meu-boi do Seu Teodoro. Quem elegeu Paulo pela primeira vez foram os movimentos populares de Sobradinho. Ele teve dois mil votos fora e quatro mil votos aqui. Minha origem é o futebol, sou técnico em edificações. No governo Cristovam, fui convidado a dirigir a Divisão de Esportes e Lazer da Administração Regional. Paulo foi reeleito, mas Cristovam não foi. Trabalhei também com Magela, Maninha e outros deputados, na Câmara Federal, e fiz, durante 12 anos, um trabalho de base em prol dos mandatos de Paulo Tadeu.

FS- O governo Cristovam foi surpreendido, logo no início (1995), por uma greve dos próprios professores que o apoiaram na campanha. Isso foi um péssimo recado que a primeira gestão do PT passou à população, não acha?

RV – Aquela greve prejudicou muito o governo Cristovam, pois a campanha dele sempre foi pela educação. Mas, num determinado momento, ele declarou que os servidores estavam muito bem e que ele deveria era cuidar dos excluídos.

FS – Quem estava errado?

RV – Ambos estavam errados. Cristovam criou muita expectativa e, depois que assumiu, viu que não era bem assim. O Sindicato, por sua vez, levou a categoria para uma greve, sabendo que não se muda a realidade de uma hora para a outra. Além do mais, a entidade não tinha a base toda a seu lado. A coisa piorou no decorrer do governo e mais, ainda, com a outra greve no final, que foi responsável pela derrota de Cristovam à reeleição.

FS – Qual a sua avaliação do governo Cristovam?

RV – Ele fez um governo ético e transparente. Mas pegou birra dos servidores. Disse que eles estavam muito bem na pirâmide salarial.

FS – O que, de certa forma, é verdade…

RV – Não, não é verdade. Se não tiver boa educação e serviços públicos de qualidade, com servidores atuantes e satisfeitos, como um governo vai cuidar dos excluídos?

“Cristovam fez um governo ético e transparente, mas pegou birra dos servidores”

FS – Tudo isso não são contradições de um partido que assume o governo  e esquece  a linha programática que o elegeu?

RV – Esse é um dos problemas do PT: colocar interesses pessoais acima do interesse público. Todo mundo quer educação de qualidade e serviços públicos de excelência, mas as gestões não conseguem transformar a realidade num passe de mágica. Infelizmente, o PT, em certas circunstâncias, não prima pela razoabilidade. Os sindicatos querem resolver seus problemas, que sempre são salariais, e o governo tem que resolver seus problemas de orçamento. Tá errado, é preciso ter unidade nas ações. A opinião pública vê que o governo não consegue dar segmento a seus projetos e retira o apoio. Aí, o partido governa uma vez e fica dois governos de fora. Ocorreu a mesma coisa com o governo Agnelo.

FS – O PT governou Brasília por duas vezes e não conseguiu mostrar a que veio. O governo de Cristovam foi prejudicado pelo próprio partido. Já Agnelo se enrolou nas grandes obras e não conseguiu cumprir as promessas de campanha de melhorar, pelo menos, a saúde, já que é médico. Isso é incompetência ou “culpa dos governos anteriores”?

RV – Cristovam era mais de esquerda e tinha poucos partidos de direita dentro do governo. Sem apoio do governo federal não teve dinheiro pra nada e FHC boicotou seus projetos. Agnelo fez uma ampla aliança, inclusive com adversários históricos, e trouxe todo mundo pro governo. O país estava bem economicamente.  Era tempo de Copa do Mundo e Olimpíadas, mas o governo se perdeu, não teve cara. Entregou a coordenação das grandes obras ao PMDB, com o vice Tadeu Filipelli.  As obras foram equivocadas, como a do estádio Mané Garrincha. Deu no que deu. 

FS – A prática da direita de governar viciando licitações e superfaturando obras foi uma péssima lição para o PT, não foi?

RV – Foi.  E o PT está pagando caro por isso, tanto aqui no DF, após o governo Agnelo; quanto no Brasil, após os governos Lula e Dilma. Toda a crise ética e a corrupção que o país atravessa hoje se devem a que setores do PT ter achado que governar era pegar recursos de empreiteiras e empresas públicas para bancar campanhas, o que foi desaguar na lava-a-jato.  E o pior é que o PT surgiu para combater isso, essas práticas da direita e, de repente, ele estava fazendo o mesmo.

FS – Como se manter no poder já que as campanhas são caríssimas e práticas políticas são corruptas?

RV – O PT tinha dois caminhos: ou o partido romperia com tudo isso e, provavelmente, Lula sofreria impeachment. Ou fazia o jogo do sistema. Para mim, teria sido melhor que o partido tivesse se mantido puro, mesmo que Lula sofresse o impeachment.

FS – O PT trocou o certo pelo errado e perdeu o poder. Um presidente com apoio e confiança populares pode fazer o que precisa ser feito. O PT, ao invés de fazer as reformas que o país espera, há décadas, acabou  mergulhado na corrupção…

RV – O Lula fala que não havia outra opção, que não fosse jogar o jogo da elite. Agente não conseguiu, ainda, nem fazer um reforma política no Brasil.

FS – Mas se o senhor e outros, que foram eleitos para mudar as coisas, continuarem a pensar assim, qual a esperança que nos resta?

RV – Lula e o PT realmente deveriam ter radicalizado e não seguir o caminho que seguiram. Chegaria o momento que a própria sociedade se levantaria contra tudo isso. Mas, como o PT seguiu o caminho da elite, a sociedade se levantou contra o PT. Hoje, estamos pagando caro por um sistema arcaico, que não fomos nós que inventamos, mas que a sociedade acha que foi o PT que inventou.

FS – Como o PT vai sair desta situação e qual será o futuro de Lula, cujo carisma e liderança estão além do próprio PT?

RV – O Lula está acima do PT e terá que escapar dos processos que está respondendo e da perseguição que está sofrendo. Se ele escapar de tudo isso, certamente vencerá as eleições de 2018.

(Leia nos próximos dias  a segunda parte : O FUTURO DE LULA E CANDIDATURA AVULSA)

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