Administrador diz que vai recuperar Ribeirão Sobradinho e o Polo de Cinema

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Valter Soares Leite nasceu no Hospital Regional de Sobradinho, há 37 anos. Cresceu na Quadra 18 vendo seu pai, o pedreiro José Leite, ajudar os vizinhos construir os primeiros barracos e casas do local, incentivado pela esposa, Maria Cícera, que foi fundadora e primeira presidente da associação comunitária da quadra.

Ele conta que, em 1981, quando os barracos da 18 ficaram prontos, sua mãe brigou pelo asfalto; quando o asfalto chegou, ela brigou pelo orelhão e outros serviços.

Naquela época, segundo ele, muita gente nunca tinha falado ao telefone. “Quando o orelhão tocava, era uma festa. Todo mundo queria atender. Quem atendia, corria e avisava o morador da ligação”.

O hoje, administrador de Sobradinho explica, com orgulho, que sua mãe sempre incentivou os projetos sociais, promovia cursos de corte e costura e acolhia necessitados em sua casa.

“Somos 11 irmãos biológicos e seis adotivos. Inclusive, minha mãe trouxe mais um “irmão” do Nordeste e, lá de casa, ele só sai quando casar”, explica.

A Família Leite também foi pioneira no Nova Colina, para onde se mudou em 1992. “Fomos a primeira família a chegar lá e minha mãe também fundou a associação do bairro. Então, eu tenho escola na área social”, revela o administrador de Sobradinho.

Valter confessa que está muito feliz em assumir a Administração Regional, exatamente no mês de maio, quando a Cidade completa 57 anos de fundação.

“Se eu ganhasse o maior prêmio da loteria, continuaria morando aqui. Aqui todo mundo se conhece, na fila da padaria ou na beira do campo de futebol, todo mundo se confraterniza. Isso você não encontra em qual quer lugar”.

No último dia 16 de maio, às sete da manhã, em meio à correria da programação de aniversário da Cidade, o administrador concedeu extensa entrevista aos jornalistas José Edmar Gomes e Antônio Caetano, do Folha Serra, da qual você lerá os principais trechos abaixo:

O senhor assumiu a Administração, a menos de um mês. Que os contatos já foram mantidos como a comunidade. Os conselhos comunitários estão funcionando?

Valter Soares Leite – Amanhã, 17 de maio, faz um mês que assumi a AR e já me reuni com os Conselhos de Segurança, de Cultura e associações. Realizamos, recentemente, reunião de segurança no Córrego do Arrozal. Recebi, também, o Conselho de Pastores e lideranças comunitárias. Estou me esforçando para atender as demandas que me são apresentadas nas reuniões com estas entidades.

Estes conselhos são entidades oficiais? Como eles são legitimados?

Eles são oficializados a partir da publicação de um decreto do governador no DODF. Inclusive, o pessoal que milita na área ambiental está pretendendo fazer uma consulta pública para criar o Conselho do Meio ambiente de Sobradinho.

Devido à instabilidade política e aos arranjos partidários, alguns administradores passam tão rapidamente pela Cidade que a população não fica sabendo sequer seu nome e não vê a sua cara. Como o senhor pretende dialogar e se fazer conhecido e respeitado pela comunidade?

Nossa gestão será comunitária e compartilhada com os órgãos e entidades organizadas da Cidade. Quero trazer a comunidade para participar da gestão. Não tive tempo, ainda, mas vou visitar o comércio, entidades e organizações comunitárias.

Isso já não deveria ter acontecido?

Eu estava trabalhando com uma equipe muito pequena, nestes primeiros dias de gestão. Só ontem (15 de maio) é que o DODF publicou a nomeação do meu chefe de gabinete, Andrei José Braga Mendes, e dos assessores técnicos da AR.  Agora, com o time completo, vou poder sair a campo e agilizar as parcerias com as entidades, escolas e outros órgãos. Eu garanto que quem gosta de Sobradinho e quer trabalhar por ela, terá total apoio da nossa administração. Quem quer o bem da Cidade vai encontrar a porta do meu gabinete sempre aberta para buscarmos soluções para os problemas.

O governador Rodrigo Rollemberg se elegeu prometendo eleições diretas para as ARs. Onde anda esse projeto?

O projeto está em apreciação na Câmara.

O senhor apoia esse projeto? Será que o governador ainda tem interesse nele?

Acredito que o governador tenha interesse, sim. Porque é bom ouvir a voz da comunidade. Será a oportunidade de a Cidade se manifestar e escolher o nome que vai administrá-la por quatro anos, fortalecendo a parceria, evitando o troca-troca de administradores a que você se referiu. Esse é um grande projeto.

O senhor concorda com a criação das Administrações de Sobradinho II e Fercal, pois os recursos já eram escassos para uma, quanto mais para três administrações na mesma região?

Concordo, porque a área é muito extensa para uma administração só. Por isso, eu acredito numa parceria, para que uma possa ajudar a outra. É o que eu tenho feito, desde que assumi, junto a Sobradinho II. Eu e o Coronel Charles Magalhães mantemos uma parceria sem vaidades. Ele me empresta uma máquina que eu não tenho e vice-versa. Isso tem funcionado muito bem.  A região é muito vasta. Tem o Dnocs, Nova Colina e os condomínios. Os administradores têm que se aliar.

E a questão do mau cheiro na entrada da Cidade? É um problemas de décadas que permanece até hoje…

Exato. É um problema de muito anos. Mas, agora, temos uma notícia boa: a Adasa (Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal é a agência reguladora e fiscalizadora do Distrito Federal) contratou uma empresa especializada para fazer um estudo de toda a extensão do Ribeirão Sobradinho e diagnosticar os problemas.

Por falar em problema, a Caesb está fazendo a obra de captação de esgoto do Grande Colorado e Sobradinho II e a tubulação e galerias passaram exatamente em cima da “Geladeira”, um sítio ecológico vital para o Ribeirão, que foi totalmente devastada. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Quando cheguei aqui, este trabalho já estava pronto. Mas, muito por causa desta obra, o estudo da Adasa vai contemplar todo o mosaico e o curso do Ribeirão, desde o Horto Florestal, tomando providências e responsabilizando quem fez intervenções indevidas. O estudo será entregue à Caesb, em seis meses, para que ela possa fazer as compensações. Uma das prioridades da minha gestão será a revitalização do Ribeirão Sobradinho e da Casa do Ribeirão, que será entregue às entidades ambientais e culturais para que essa situação de degradação seja discutida e revertida.

E as invasões que, há tempos, vêm se formando às margens do Ribeirão, desde a Quadra 18 até a Quadra 01, como serão erradicadas?

Uma equipe da AR já está monitorando esse pessoal, descobrindo onde ele está e fazendo relatório da situação. Estou trabalhando, desde que assumi, para que esse processo não cresça. O relatório da AR será entregue à Agefis (Agência de Fiscalização do Distrito Federal) e ao Ibram (Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Distrito Federal ou simplesmente Instituto Brasília Ambiental)

Inclusive, na “Geladeira”, há uma grande invasão. Já tem barraco pra todo lado…

O estudo da Adasa vai contemplar tudo isso e sugerir providências. Esse trabalho será levado ao conhecimento da população.

Enquanto falta água no DF, Sobradinho polui um maravilhoso curso d’água que passa bem no nosso quintal e poderia ser um manancial estratégico. Isso não é uma contradição?

Sobradinho é privilegiado. Brasília inteira queria ter um ribeirão desse e não tem. Por isso, vamos recuperar a Casa do Ribeirão, juntamente com o pessoal da cultura e os ambientalistas, para que a comunidade tenha um espaço para acompanhar e discutir o processo de recuperação do Ribeirão Sobradinho.

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Valter Soares Leite promete fazer uma administração compartilhada, ouvindo as entidades e a sociedade.

Há muitas construções às margens do Ribeirão que não estão de acordo com o Código Florestal e as leis ambientais. O estudo vai resolver isso?

Com certeza. É exatamente para isso que ele será feito.

As faixas verdes de Sobradinho são verdadeiros parques florestais, com a vantagem de ter variedades de frutíferas. Mas a maioria dos moradores, nem o poder público cuidam bem delas.  O mato quase sempre é alto, a poda demora. Muitos locais já viraram depósito de lixo. Eu considero as faixas verdes um patrimônio ambiental. O Senhor vai mantê-las bonitas e limpas?

Já começamos este trabalho. Priorizamos as faixas verdes no Programa Cidade Limpa. Fizemos um levantamento e atacamos a limpeza; a poda e a iluminação, que estava precária em alguns pontos. Vocês já estão vendo a diferença. O problema é que alguns moradores cercam áreas grandes, onde as máquinas não podem entrar. Nem mesmo para retirar o lixo que o próprio morador jogou ali.

Mas esses mutirões só ocorrem, em certas ocasiões. Esse trabalho não deveria ser permanente?

Concordo com você. O Cidade Limpa é um programa que atende uma cidade do DF, a cada mês. Mas, a AR tem uma equipezinha com caminhões e pá mecânica para retirar galhadas e entulhos. Para este trabalho, contamos, também, com o apoio dos reeducandos da Funap (Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso do DF).

É legal os moradores cercarem as áreas em frente suas casas?

Na verdade, eles fazem um jardim particular em área pública. O problema maior é que, apesar deles cuidarem da área cercada, alguns jogam o entulho que tiraram de lá na faixa verde. Aí a AR acaba enxugando gelo, pois todo pedido de retirada de lixo e entulho é atendido. Mas têm casos que retiramos o lixo e, na mesma semana, o local volta a receber sujeira.

O trabalho de limpeza e poda não deveria ter acompanhamento? O corte da grama, por exemplo, não é rente ao chão, ainda fica alta e, quando o trabalho termina, a grama já está alta onde ele começou. O acabamento também não existe. Quer dizer, o contribuinte paga por um trabalho que tecnicamente não é bem feito…

A partir do Programa Cidade Limpa, destacamos um funcionário para acompanhar cada área. Tem um para fiscalizar a poda, tapa-buracos, remoção de entulhos e pintura. Eu concordo com você, se não fiscalizar, o serviço fica pela metade.

E o terreno entre as duas Quadras 10? A população reclama que tem até boca de fumo lá. Os desocupados furaram o muro e ficam isolados lá dentro.  É preciso cuidar daquele espaço antes que ocorra ali, um estupro ou um assassinato, porque assalto já ocorreram vários.

Vou cuidar disso. Eu estava trabalhando com pessoal limitado, mas agora a equipe está completa e vamos fazer o que é preciso.

E os lixões da Quadra 02 e do Polo de Cinema vão permanecer como estão, incomodando os moradores?

Limpamos totalmente o da Quadra 02, durante o Programa Cidade Limpa. Inclusive, apagamos um incêndio lá, na primeira semana que cheguei. Para isso, a AR teve que trabalhar quatro dias, durante o feriado e o final de semana. O lixão da Quadra 02 é uma área de transbordo. Agente joga lá o que tiramos da Cidade e a Novacap vem e leva para o lixão da Estrutural. Para minimizar o problema, eu pretendo aumentar essa rotatividade. Se o lixo não demorar lá, o mau cheiro diminui. Se a limparmos a Cidade uma vez por semana e a Novacap levar o lixo, tudo melhora. Quanto ao lixão do Polo de Cinema, mantemos uma parceria com a AR de Sobradinho II. Agente empresta máquina um pra o outro e troca mão de obra.

Mas porque o lixão da Quadra 02 tem que ficar dentro da Cidade? Ele não poderia ficar mais longe?

Temos um projeto de retirar o lixão dali, mas precisamos do apoio de outros órgãos para o transporte do lixo. Hoje, só temos dois caminhões. É claro que é melhor levar o lixo para o lugar certo, ao invés de jogá-lo em área de transbordo, próxima à Cidade.

E a pista de bicicross da Quadra 02, quando será entregue?

Já era pra ter sido entregue, mas os atletas pediram alguns ajustes. Inclusive, um atleta federado sugeriu algumas mudanças. Vamos iluminá-la e entregá-la à comunidade no segundo semestre.

O Polo de Cinema está acéfalo e sua área invadida por sem-terra. Há especulação de que a área será loteada e já tem até construtora interessada. O que há de verdade nisso?

Isso não chegou até a mim. Mas, se estiver acontecendo, vou brigar para não acontecer. Vamos lutar junto com a comunidade e os grupos organizados. O Polo de Cinema é tão importante para mim, quanto o Ribeirão Sobradinho, a Casa do Ribeirão e o Parque dos Jequitibás. Ele faz parte da nossa história. É o polo de cinema de Brasília, onde deveria estar sendo feito filmes.  Mas fiquem tranquilos. Qualquer alteração no Polo terá que passar pela AR. A comunidade tem de ser ouvida.

Você responde ou respondia uma ação penal por improbidade administrativa, quando era chefe de gabinete da AR de Sobradinho II. O que o senhor tem a dizer à comunidade sobre isso?

Eu fui absolvido (mostra a certidão impressa com a decisão do juiz Osvaldo Tovani, da Vara Criminal de Sobradinho) Foi um processo de 2010, referente à festa de aniversário de Sobradinho II. O aniversário era no dia 11 de outubro, mas era ano de eleição e o pleito tinha sido realizado no dia 3 de outubro. Estava tudo pronto para a festa, bem antes das eleições, mas os recursos da emenda parlamentar só chegaram depois da eleição, no dia 4. Tivemos só uma semana para trabalhar e emitir a nota de empenho. O Ministério Público então questionou o gasto em período eleitoral e porque fizemos uma festa tão rapidamente. Mas não era isso. Estava tudo pronto, o recurso é que chegou em cima da hora. Mas já foi tudo resolvido. A ação transitou em julgado e a decisão saiu dia 22 de julho de 2015 e eu fui absolvido, sem nem constituir advogado. A mídia é que não pesquisou para dar a notícia.

No final de sua gestão, qual será o seu legado? Que obras o senhor vai deixar prontas? 

Quero devolver vida a Sobradinho. Quero recuperar o que está danificado. Recuperar a Casa do Ribeirão, revitalizar o Ribeirão Sobradinho e o Polo de Cinema, além de reformar o Posto de Saúde da Quadra 03, porque saúde é fundamental. Neste curto espaço de tempo e com poucos recursos, não dará pra fazer muita coisa, mas quero deixar o legado de uma gestão comunitária. Eu sou filho de uma líder comunitária e a comunidade é representada por mim. Eu quero a comunidade dentro da AR, quero deixar o legado de uma gestão compartilhada com vocês que fazem a história da Cidade.

 

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