Biografia e doc revelam a história do músico Zé Rodrix

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O cantor Zé Rodrix ganha biografia e documentário

Biografia e doc revelam a história do músico Zé Rodrix

RIO – Autor das biografias de Paulo Leminski e Torquato Neto, e do livro “Solar da Fossa” (sobre o casarão colonial em Botafogo onde moraram, em épocas coincidentes ou não, artistas como Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Paulo Coelho e Tim Maia), o jornalista curitibano Toninho Vaz teve sua curiosidade despertada por uma figura que não morava no Solar mas estava sempre por lá: o carioca José Rodrigues Trindade, que mais tarde despontaria para o estrelato sob a alcunha artística de Zé Rodrix.

— Eu não fazia ideia de que, por baixo da pedra, tinha tanto Zé Rodrix! — brinca Toninho, que este ano (quando o músico e escritor, falecido em 2009, completaria 70 anos) lança sua nova biografia, ainda sem título, que será complementada pelo documentário em longa-metragem “O fabuloso Zé Rodrix”, do diretor Leo Côrtes.

DO ROCK RURAL À MAÇONARIA

Integrante dos grupos Momento Quatro (que acompanhou Edu Lobo em “Ponteio” no Festival da Record de 1967) e Som Imaginário (de Milton Nascimento), Zé foi coautor, com o cantor Tavito, de um dos grandes sucessos de Elis Regina, “Casa no campo”; ajudou a criar o rock rural com o grupo Sá, Rodrix & Guarabyra e fez muito sucesso, em carreira solo, com canções como “Soy latino-americano”. Multi-instrumentista, regente, arranjador e produtor musical, ele enveredou pelas trilhas de filmes, pela publicidade (em jingles memoráveis para a Estrela e a Chevrolet), pelos musicais (foi diretor de “Não fuja da Raia” e “Nas Raias da loucura”, estrelados por Claudia Raia) e escreveu uma “Trilogia do templo”, de três extensos romances históricos, inspirados em sua vivência na maçonaria.

Na sua pesquisa, ao longo da qual entrevistou mais de 50 pessoas que passaram pela vida do múltiplo astro (de Moacyr Franco a Nasi, vocalista do Ira!, só para se ter uma boa ideia), Toninho acabou descobrindo um lado sombrio por trás daquela figura irreverente — nos anos 1980, Zé chegou a se juntar à banda de rock satírico Joelho de Porco — que muitos de seus amigos consideram um gênio que não aconteceu, ofuscado por sua própria multiplicidade.

— Houve aquilo que resolvemos chamar de “as três mortes de Zé Rodrix” — diz o biógrafo, informando que a primeira delas foi em 1982, quando o músico entrou em depressão após a morte de Elis Regina, que então brigava com a indústria musical. — Ele interrompeu a carreira musical e não saía mais do quarto. Passava os dias só de cueca samba-canção e os parentes temiam que ele viesse a se matar.

Quem o salvou dessa depressão foi Tico Terpins, integrante do Joelho de Porco e publicitário, que não só levou Zé para o grupo (que virou sua “terapia”) como organizou sua vida financeira e o chamou para ser seu sócio em uma agência de publicidade. Entre um jingle, uma versão (com o cartunista Miguel Paiva, assinou “Demais”, versão de de “Yes, It is”, de Lennon e McCartney, gravada por Veronica Sabino) e alguma curtição com o Joelho (que em 1985 ganhou o prêmio de melhor letra do Festival dos Festivais da TV Globo com “A última Voz do Brasil”), ele foi levando a vida. A “segunda morte” de Zé Rodrix se deu em 1998, quando Tico faleceu subitamente de ataque cardíaco.

— Ele entrou novamente em depressão, porque havia perdido o seu melhor amigo, e só saiu dela quando o Rock in Rio de 2001 quis homenagear o rock rural e chamou o Sá, Rodrix & Guarabyra para se apresentar — conta Toninho, lembrando que a partir daí o grupo voltou à estrada e gravou disco.

PROFECIA QUASE CUMPRIDA

A “terceira morte” de Zé Rodrix seria mesmo a fatal, quando sofreu um ataque cardíaco em casa, em São Paulo, numa sexta-feira, após sentir-se mal em seu carro. Aos 61 anos, Zé chegou perto de cumprir a profecia de um texto que escrevera quatro anos antes, “Perfeição de morte” (que abre e encerra o filme): “Morrer num sábado à tarde, ser enterrado num domingo antes do almoço e estar completamente esquecido na manhã de segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguém. Eis a perfeição que desejo para a minha morte.”

— Quando começamos o filme, nós tínhamos um quebra-cabeças que não sabíamos no que ia se transformar — conta Leo Côrtes, que estreia da direção de longas com “O fabuloso Zé Rodrix”, do qual já tem uma primeira versão, que espera aprimorar até junho, quando deve pôr o filme em festivais.

O título do longa se refere não só às inúmeras qualidades artísticas de Zé, mas a sua tendência à fabulação. Em sua pesquisa para a biografia, Toninho Vaz foi até a primeira mulher do músico, a jornalista Hildegard Angel, com quem ele viveu por seis meses em Porto Alegre, quando ela tinha 19 anos.

“Quando eu conheci o Zé, ele disse que era de uma família rica, que o pai tinha carros importados, a mãe era tipo fina, com mordomos etc. Quando fui à sua casa, a realidade era outra. O pai tinha uma tinturaria e a mãe monitorava alunos na condução de uma escola”, contou Hildegard a Toninho, que, em sua pesquisa, encontrou até uma letra de Zé Rodrix e Paulo Coelho (ver no box), censurada em 1979 por ferir “a moral e os bons costumes”.

POR SILVIO ESSINGER

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