Do que trata ‘Menino 23’, o documentário brasileiro que pode chegar ao Oscar

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Filme refaz investigação de historiador sobre meninos negros órfãos tornados escravos por uma família da elite brasileira

No final da década de 1990, o historiador Sidney Aguilar ensinava jovens a respeito da 2ª Guerra Mundial quando uma aluna mencionou a existência de tijolos marcados com a suástica, símbolo do nazismo, em um terreno adquirido por sua família, no interior de São Paulo.

O comentário despretensioso em meio à aula foi o início de uma importante investigação da historiografia nacional sobre a relação do Brasil com o nazismo, da tese de doutorado de Aguilar e do filme “Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil”.

O documentário, lançado no país em julho de 2016, voltou recentemente ao noticiário por estar disfarçadamente entre os 144 finalistas na disputa pelo Oscar da categoria.

Dirigido por Belisário Franca, o longa refaz os passos que levaram Aguilar até a fazenda Santa Albertina, em Campina do Monte Alegre, interior de São Paulo, terreno que um dia pertenceu à poderosa família Rocha Miranda.

Na pequena cidade, diretor e historiador reencontram os tijolos marcados com o símbolo cravado no imaginário global por Hitler ao instalar o regime nazista na Alemanha. Eles estavam no pé de uma capela escondida entre terra e capim.

O nazismo no Brasil
A história dos tijolos veio à tona em 2011, após a publicação da tese de doutorado de Sidney Aguilar, “Educação, autoritarismo e eugenia: exploração do trabalho e violência à infância desamparada no Brasil (1930-1945)”, apresentada na Faculdade de Educação da Unicamp.

Eles eram apenas a primeira pista para se chegar à história dos 50 meninos negros levados de um orfanato do Rio de Janeiro para trabalhar em situação análoga à escravidão na fazenda do interior de São Paulo. O episódio ganhou os noticiários internacionais após sua divulgação.

Os Rocha Miranda, donos do terreno e responsáveis pela atrocidade, eram uma família respeitada da elite brasileira, cujos integrantes admiravam as ideias eugenistas de Adolf Hitler num período em que o então presidente Getúlio Vargas fazia um jogo de interesses entre os dois lados do conflito que desembocou na 2ª Guerra Mundial, em 1939.

Vargas flertou com a Alemanha nazista, como gostam de dizer os historiadores, no período pré-Guerra. A boa relação permitiu o crescimento no país da Ação Integralista Brasileira – maior partido fascista fora da Europa, com 40 mil membros.

O filme de Belisário Franca
O diretor refez com Sidney Aguilar todo o percurso realizado pelo pesquisador para a construção de sua tese de doutorado.

Na pequena cidade, eles conversam com os moradores locais mais velhos que ali cresceram e ainda residem. Crianças à época dos acontecimentos, os moradores pouco tiveram a dizer sobre o que se passava no interior da fazenda dos Rocha Miranda – em parte pelo fato de o tema ter sido tratado como tabu em suas infâncias, em parte porque os fatos eram naturalizados na realidade brasileira de então.

Até encontrarem Aloizio Silva. Na fazenda, eles eram numerados de acordo com o tamanho. Aloizio foi o 7, antes da chegada da segunda leva de órfãos. Então se transformou no “Menino 23”.

O único ainda residente em Campina do Monte Alegre, Aloizio desdobrou a história por trás dos tijolos marcados com suástica, relembrando o que se passou naquela época.

Ele foi levado de volta ao orfanato no Rio de Janeiro de onde os meninos eram retirados. Lá, contou como foi feita a seleção: um integrante da família Rocha Miranda jogou balas para o alto para identificar os garotos mais fortes.

Aloizio também foi levado à escola local, que leva o nome de um dos integrantes da família – Renato Rocha Miranda. Na cidade, eles são vistos como grandes benfeitores.

Outro sobrevivente
A narrativa adquire novo ritmo quando diretor e historiador chegam a Argemiro Santos, outro sobrevivente da fazenda que alistou-se na Marinha após fugir do matagal.

Argemiro é encontrado graças a uma dica dada por Aloizio quando  tenta recuperar na memória os nomes de seus companheiros de trabalho. Argemiro virou marinheiro, lembra, e assim o historiador rastreou seu nome nos arquivos da Marinha.

Aos mais de 90 anos, o segundo sobrevivente vive em Foz do Iguaçu com a mulher e lembra com descaso jocoso do passado – um contraponto à amargura de Aloizio, como ressalta o historiador em uma passagem.

Com os dois, são reconstituídos os quase dez anos de trabalho dos meninos tornados jovens numa rotina de trabalho de adultos. Capinavam, cuidavam dos bois, dos porcos, e se deitavam quando o sol se punha, conforme narram. Castigos corporais eram uma constante.

Em outra cena, Argemiro acompanha a letra do hino da Ação Integralista Brasileira, enquanto assiste a um vídeo-propaganda do partido, reproduzido pelo celular. Os meninos eram obrigados à cantá-lo na fazenda.

“Menino 23” é preenchido com imagens de arquivo e encenações em preto e branco dos buracos da história que não foram registrados – responsáveis pela dramatização da narrativa. Garotos brincando no orfanato, castigados na fazenda e tentativas de fuga entre velhos trilhos são algumas das cenas recriadas.

Descendentes da família Rocha Miranda foram procurados para dar depoimento ao longa, segundo os realizadores, mas teriam se “recusado” a falar. Na internet, o blog familiarochamiranda.com rechaça a produção. À “Folha de São Paulo”, em 2013, a família também contestou a versão da prática de trabalho escravo.

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